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O CHEIRO A GASOLINA E O BOI DA DISCÓRDIA NA POESIA DE JOSÉ LUÍS MENDONÇA

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Pires Laranjeira
(FLUC-CLP/FCT)
tirou-nos tudo a burguesia
colonial e pós colónia, olhai
como ficaram magros os ventos
dos punhos cerrados do povo.
(in “Praça da não-independência”)
o Estado ficou sozinho com
a mentira bruta
e a esquizofrénica e desmedida
medula da prepotência
(In “Privatizaram os monumentos”)

José Luís Mendonça surpreende-nos com este livro de poesia, 'Angola, me diz ainda', como já surpreendera ao publicar o romance 'O reino das casuarinas', porque em ambos reivindica a herança literária de Agostinho Neto e questiona a organização sócio-económica do país. O seu atrevimento é servido pelo humor ácido (“Porra, que este país só cheira a gasolina!”) e isso constitui todo um programa de desmontagem da política económica e desminagem da economia política na poesia, que, neste último caso, se tem manifestado muito contidamente ao longo do novíssimo século. Havia necessidade de trazer para a poesia a graça e a garra das falas livres e soltas, descomplexadas e frescas, denunciando o estado da nação, alguns desses textos escritos há bastante tempo, mas que somente agora puderam aparecer a público, percebe-se porquê.

 

José Luís Mendonça – um escritor com vários prémios - começou um percurso poético em forma de livro no já distante ano de 1981, com 'Chuva novembrina', integrando a primeira geração de novos autores angolanos que chegaram à idade adulta com a independência política. Tratava-se daquela onda geracional que o crítico Luís Kandjimbo escarificou como “Geração das Incertezas”, acertando no alvo da incertitude que a guerra no país provocava na mente e no corpo das populações. Era o tempo da luta contra o apartheid e de outras batalhas que se travavam na África Austral, pela libertação do continente das garras da ameaça de neo-colonialismo disfarçado de globalização democrática. Lembramo-nos, por certo, do auxílio ao ANC, quando o prisioneiro Mandela era demonizado e esquecido em territórios significativos do chamado Ocidente.

Kandjimbo estava provavelmente longe de imaginar que essa Geração se transformaria em Certeza (para usar uma palavrinha muito cara a Agostinho Neto, título de um poema seu), com José Luís Mendonça, J. A. S. Lopito Feijóo K., João Maimona, Carlos Ferreira, Paula Tavares, Fernando Kafukeno, João Melo, Nankhova Trajano e tantos outros, que só por negligência aqui não se indicam. 

Esse jovem poeta e jornalista cresceu num país em que o princípio da sobrevivência – da independência, do regime, do povo - tinha o primado sobre a sobrevivência de quaisquer princípios herdados da colonização e do colonialismo moderno pós-Conferência de Berlim de 1884-85, que eram os princípios (ditos éticos) que o Ocidente queria aplicar a todo um continente. Foi essa a lição que Mendonça herdou do poeta maior da Nação, Agostinho Neto, e primeiro presidente do País, nunca a recusando, antes a recordando, e continuando, neste momento, em que escolhe uma epígrafe com versos dele relativos à dura caminhada do povo pobre, explorado e dominado.

Entretanto, Mendonça publicou, entre uma vintena de livros, uma escolha da sua poesia, em Portugal, na Imprensa Nacional-Casa da Moeda, com o título de 'Um canto para Mussuemba' (2002) e ainda o livro de contos 'Luanda fica longe e outras estórias austrais' (2016). Mais não seria necessário para atestar, entre as letras portuguesas, a importância da receção a este escritor.

A temática do seu livro, enquanto matéria estratégica da significação, espraia-se por uma mão cheia de tópicos fortíssimos que nos fazem recuar àquela poesia desassombrada de todas as lutas dos seres humanos pela dignificação da humanidade, traduzindo-se, inclusive, por uma mudança de paradigma ideológico: “veio este deus consumista/correr com o deus comunista” (in “Dinheiro”). Além disso, regista-se todo um estendal de temas e motivos como a indignação pelas meninas estupradas; a lamentação de as mães já não contarem histórias; os meninos transformados em ladrões; a questão do poder (a manifestação utópica ou, então, irónica do desejo de todos poderem exercer o mando); a fome; a miséria; a “solidão poligâmica”; a crítica à corrida armamentista; a acumulação ilegítima e ilegal da riqueza das matérias naturais e do trabalho (ou seja, o roubo dos bens coletivos); a dependência económica do petróleo; a crítica a aspetos da cooperação com a China; a referência ao “cheiro muito triste do talho do Rwanda”, que se propaga a Angola, no poema “O fim da guerra”, de que se extrai a seguinte citação:

com as tripas de fora: os anjos de lama
que havíamos matado nos matavam com a nossa
própria face enlameada de sangue, suor e lágrimas.

A temática passa também pela tática de recursos apropriados a uma Neo-negritude, como reforço da memória do que já foi, mas continua a acontecer, focalizando a identidade a partir do conceito social e cultural de raça/cor de pele, no poema “A cor da humanidade”, também ele, tal como Neto, desmanchando o preconceito de que há povos menos racistas do que outros:

Um miúdo que passava falou olha o preto.
Serei eu um pretérito imperfeito
que só fala pretoguês?
Aqui no ventre solar da mamãe África
me chamam mestiço, laton e outros
conglomerados étnicos. Até branco me chamam.
Uma vez uma garina me disse
tens a cor da sorte.
Em São Paulo me fecharam
de negão no gueto e me pintaram
outra vez de preto preterido.
Um dia no aeroporto
Charles de Gaule passaram
a minha identidade a pente fino.

Enquanto assume a bandeira do negro, o poeta, por outro lado, recusa o mundo social a branco e negro e não descarta a problemática identidade do mestiço, tal como, noutros tempos, Francisco José Tenreiro e José Craveirinha, e dedica, talvez também por isso, um poema a Mário António, mestiço como ele e também um teórico defensor da existência de “crioulidade” na Luanda oitocentista, que alguns seguidores transpuseram para toda a sociedade angolana, posicionamento que continua a gerar controvérsia. Mário António nunca esteve interessado na Negritude, nem na luta armada de libertação, que renegou, mas isso não impede Mendonça de o recordar, como poeta merecedor de um lugar na história da literatura angolana. Isso é um atestado do espírito democrárico e justiceiro do poeta.

A Neo-negritude deita mão de processos de imitação e recriação da oralidade quotidiana ou ancestral, resultando numa coloquialidade não afetada pela erudição academicista. Acresce ainda a herança da poética angolana de Oitocentos, com o uso do jisabu/provérbio ou dos diálogos, em kimbundu, como também praticaram Agostinho Neto e Viriato da Cruz. O poeta agrega o jongo, o jeito das histórias orais, do fabulário, com muito humor e crítica:

“a aldeia onde falta o soba está cheia de capim” (in “O último Ngola”). Quer dizer: onde falta uma liderança amada e respeitada, instala-se a loucura no reino das casuarinas. Para essa leveza e encanto ligados ao quotidiano pode confluir igualmente, num ou noutro texto, a rima final, em jeito de redondilha maior, resultando em fluidez, tanto no ritmo de canção infantil quanto na conjugação de falas variadas (lembrando nessa apropriação o já referido Mário António e também Viriato da Cruz ou Guerra Junqueiro). Mendonça inclui trechos de autorreferência à feitura do verso coloquial, alinhando pela autorreflexividade típica de variadas constelações literárias e artísticas do século XX, muito evidente no poema “Se eu fosse ministro”, de crítica aos poderes fáticos e enfáticos: “nova língua que o povo/estiliza no meu verso”.

Tal contexto, processo e dinâmica na poesia não é muito dissemelhante do que se passa na sociedade. Contra o que a sociedade do capital, do consumo e do desperdício quer fazer crer – que a poesia é um exercício estiloso para entretenimento de ociosos e outros enfeites, ensinada nas escolas para criar cidadãos condescendentes –, ela é imprescindível desde a alvorada dos tempos, podendo engajar-se sem deixar de ser poesia, de compromisso social e político, de combate e insubordinação, continuando a existir sempre como forma de luta, que, como todo o tipo de poesia e de arte, se apresenta revestida com as cores magníficas da audácia e da delícia.

Já Lopito Feijóo tinha experimentado, há pouco tempo, uma atitude poética de sair do armário do silêncio com os seus versos carregados de crítica, mas não com a virulência de tamanha força social, politicamente explícita, com que Mendonça nos interpela. Seria injusto não recordar também todos os livros de Carlos Ferreira, em que a revolta, a crispação e a desolação atingem a raiva da denúncia e do incorformismo. Lá mais atrás, lembre-se a poesia de revolta, contestação e insurgência contra o colonialismo, de um António Cardoso, prisioneito do Tarrafal.

A poesia de Mendonça e toda a poesia angolana sofrem com este livro uma viragem de 360 graus à sombra do “boi da discórdia”, porque o autor teve a paciência e a coragem de trazer para os seus versos o mesmo tipo de iluminação que incendiou as letras das canções e rapsódias do hip-hop contestatário de Angola, fosse ele mais elaborado ou olimpicamente improvisado e desdenhoso de novo-riquismo, e que tem chegado a confrontar explicitamente o poder supremo do Estado.

José Luís Mendonça faz jus ao papel do poeta consciente e crítico de todos os tempos, reconciliando a poesia com a sua longa e ampla herança de sabor épico e iconoclasta. Ele traz para a poesia do setor erudito da sociedade angolana o magma sóciopolítico, desabridamente crítico, que a escrita impulsiva, improvisada e explosiva dos rappers saídos dos musseques como que vinha exigindo aos seus coetâneos de estratos sociais mais beneficiados pela ordenação política da pós-independência. No poema “Eu, o poeta marginal”, há uma clara homenagem a esses revoltados que não escrevem no papel ou no computador, mas que Mendonça qualifica como poetas nacionais, não os deixando fora do campo literário angolano:

o poeta nacional o que escreve
profecias nas paredes da cidade
Mendonça põe na letra desses poetas uma crítica acerba aos acumuladores de capital:

vocês todos cambada de ladrões
É uma grande novidade em Angola, aquela em que se reconcilia o atual campo poético com a tradição griótica e engajada do povo sofredor, numa expressão supraétnica e patriótica. Logo a começar pelo título, Angola, me diz ainda, há esse modo tão angolano de usar a língua portuguesa e de chamar, em primeiro lugar, a pátria pelo nome, justificando o epíteto de poesia nacional, agora que se fala de literatura-mundo.

O ponto alto do engajamento crítico e cómico, segundo a minha opção de escolha valorativa, encontra-se em “A cada questão o seu feitiço”. Temos, nesse poema, o cântico dos cânticos da denúncia política em clave maior de lirismo, humor, elegância e malandrice. Repare-se nestes versos: “Porra, que este país só cheira a gasolina!”.

Parece-me, assim, o poema mais próximo do estilo whitmanniano da “Renúncia impossível” de Neto e da sua temática acusatória, descontando o facto de que o fundador do Estado-nação nunca usaria um termo de etimologia chula. Esse é o apanágio da descontração de Mendonça, como que assumindo na própria poesia a figura de um Man Mendonça, liberto da autocensura e dos constrangimentos de uma sociedade em que os seus próprios fundadores (guerrilheiros, pensadores, artistas, escritores, enfim, intelectuais, e povo miúdo e graúdo) se podem sentir coagidos ao silêncio.

Tal descontração dá para aproximar esta poesia, primeiramente, do moçambicano José Craveirinha, pelo prazer da frase solta ou espraiada, do suelto e do manifesto, incluindo as picardias de linguagem, que tanto chegaram a chocar leitores alienígenas, surpreendidos com tamanho arrojo estético-linguístico, e refiro-me aos que recusavam o estatuto de ótimo poeta ao futuro Prémio Camões. Poesia que se associa igualmente à da são-tomense Conceição Lima, pela similar necessidade do retorno às questões identitárias da herança africana, tradicional e popular, mas também cultista, que a homenagem a figuras carismáricas e icónicas, tanto da política quanto da cultura, vem reforçar, sejam elas heróicas, exemplares ou trágicas. Nessa homenagem, cabem as chamadas “figuras de cera” (expressão de Mendonça), como Hoji ya Henda, Ricardo de Mello, Maria do Carmo Medina, Wanyenga Xitu, que se comparam aos “fantasmas elementares” do livro O país de Akendenguê, de Conceição Lima. Noutras páginas do livro de Mendonça, há também “fantasmas elementares” angolanos, africanos ou da diáspora, como Lumumba, Ximinha, Zumbi dos Palmares, António dyá Kimalawezu ou Ngola Kiluanji.

Mais uma vez, na história da poesia angolana, o poema “Fado” questiona – e lembro o “Portugal colonial” de David Mestre – o facto de o fado imperial português passar pela não-descolonização, como factor de impotência perante os ventos da história que sopravam do continente e que não foram interpretados como podiam ter sido. O poema vai ao fundo da questionação:

Porque nos deixaste, Portugal
arder na mão da Guerra Fria
quando podias ter-nos deixado
com as armas do voto no dedo
indicador da Paz que a independência
qualquer independência pressupõe?
Porque cantaste, Portugal
estórias da carochinha
aos teus filhos aqui nascidos
para depois construíres a ponte
de culpa e dor contornando
as utopias montadas dentro
do “ilustre peito lusitano” ?

Nas minhas andanças, no ano passado, encontrei em Roma um livrinho de bolso com a história das descolonizações, que refere dois revolucionários africanos de língua portuguesa (Amílcar Cabral e Agostinho Neto – e não apenas o primeiro, como tantas vezes acontece), uma edição de poemas de Ho Chi Minh, em Londres, e, finalmente, um livro da poeta sioux norte-americana Layli Long Soldier, que o New York Times indicava num suplemento todo ele sobre cultura de afrontamento da ordem trumpiana e me fez andar cerca de 15 quilómetros à procura na Grande Maçã. Em Lisboa (e Luanda), estas coisas não se encontram, é claro, nem sequer a poesia de Agostinho Neto. Se os tempos estão de novo a mudar, haverá lugar para alguma esperança democrática de ver reeditada a poesia de Agostinho Neto em Lisboa, também por essa descontração ideológica (de que de tudo se faz negócio – ao menos isso!).

Existe uma conjuntura política favorável a uma nova clarificação poética e política. Ao contrário do que as bruxas da desgraça, os mal-pensantes e os meio-democratas, insistente e maquiavelicamente, congeminaram em Portugal, nunca existiu uma ditadura em Angola, segundo o contexto e a dinâmica da australidade e não seguindo os ditames de qualquer eixo eurocêntrico, norte-americano, russo ou chinês.

A sociedade angolana tem digerido como pode algumas revoltas e muito bem a passagem de testemunho para uma nova liderança pós-eleitoral, mostrando a entrada na maioridade de um país vivendo o seu percurso democrático. Os portugueses que se convençam disso, deixem de remoer salazarismos assolapados no verniz da democracia e, louvando o gesto da editora de Guerra e Paz, leiam José Luís Mendonça, acompanhando o seu esforço poético e político para deslindar as teias do passado-presente através do seu 'maguinífico' (assim mesmo escreve aqui este cronista) “boi da discórdia”.

Esperemos que a poesia de Mendonça não seja lida (interpretada) da maneira mais perversa: uma arma que viria reforçar a comprovação da existência de uma ditadura em Angola. A poesia de Mendonça, Neto, Ho Chi Minh ou Layli Soldier mostra que é possível que tal espécie combativa sobreviva nestas sociedades do entretenimento, em Itália, EUA, Inglaterra, Angola e também Portugal, desde que não haja preconceito de universidades, médias, editoras. Com Mendonça, não passou de moda e está com a força de uma neo-negritude e um quase neo-neo-realismo existencial e libertário.

Coimbra/Lisboa, 18 de janeiro de 2018.

Bibliografia

- DENIS, Benoît, Littérature et engagement. De Pascal à Sartre, Paris, Seuil, 2000.
- KENNEDY, Dane, Storia della decolonizzazione, Bolonha, Il Mulino, 2017.
- MINH, Ho Chi, Diario dal carcere, Camerano, Gwinplaine, 2015.
- SOLDIER, Layli Long, Whereas, Minneapolis, Graywolf Press, 2017.
- VARGAFTIG, Bernard, Poésies de résistance, Paris, J’ai Lu, 1994.
______________________
ANEXO
A cada questão o seu feitiço
A cada questão o seu feitiço.
A questão da morte, por exemplo, tem um feitiço feio
macabro. A questão da morte cheira a cadáver
caixão respeitado no seu carro fúnebre
gente que deixa o trabalho para comer o morto no comba
fato e gravata por respeito a quem nunca demos cavaco na vida
ajuda financeira por honraria que não se presta aos vivos.
Já a questão da vida, essa, cheira a fumo de carro
chá de caxinde, bola de berlim docinha
ressurreição dos mortos, água transformada em vinho
sopa de osso de boi, funge de peito alto
festa de quizomba e de kuduru, imagem na revista
políticos que sobem e políticos suspensos da árvore do parlamento
nuvens que se deslocam de barlavento
sobre navios ancorados na contra-costa.
E a questão da dívida pública? Cheira a papel impresso
cocó de cabrito, bidom de gasosa com carimbo e selo branco
não me venham cá com estórias da carochinha
meu Deus, que mal é que eu fiz pra não cair no saco azul?
Levemos agora em devida conta a questão da guerra civil.
Paz à sua arma.
Vamos masé ver como anda a questão do petróleo.
Sabes acender um candeeiro de torcida de pano?
Nunca viste, nunca usaste, nunca acordaste com o nariz
cheio de fuligem por dentro e a alma a arder
no off-shore do teu cumbu? É da queda do preço do barril
na profundidade do pré-sal. Do crude.
O cru de quem? O cu enrugado de qualquer cidadão
que nunca cheirou a textura do ouro negro?
Porra, que este país só cheira a gasolina!
Sabes aquela maka (vamos deixar de portuguesismos)
aquela maka tão transparente, tão transparente
como um diamante lunda-tshókwe?
Cheira a fóssil, meu kamba ,
a dinossauro & árvore liquefeitos.
Não me obrigues a contar, quem sou eu
para vir aqui dizer-vos o que todos sabeis?
Se eu fosse poeta, metia era esse diamante num verso
e dava-vos a beber num bidom de maruvo fresco
que a cerveja dagora já não é como a do tempo colonial
que sabia a umbigo de mulher.
Temos outra maka, outra questão (vamos lá voltar ao português
a única língua nacional de Angola), a questão, essa mesmo
da língua que desfalamos. Que língua é essa
que o povo pinta de azul candongueiro
que o ministro risca no quadrante aéreo do palácio surreal
e que a zungueira arreió-arreió na sua quinda
de cartar o sonho numa rodilha de pesadelos?
Não me perguntem a mim que sou engraxador da Mutamba
e só sei dizer pai grande, só sei cantar rap no pé de quem passa
grafitar no muro da Samba, mibeijó (tudo pegado)
fumar libanga e beber ilusões empacotadas.
Vou-te falar da questão do salário mínimo.
Tem feitiço de cágado. Malembe-malembe
melambe-melambe é o seu andar. O salário mínimo
tem a carcaça dura. Anda todo borrado de medo
de perder o bolso do trabalhador. Ficaria sem história.
Restaria apenas o salário máximo dos donos do mar e da terra.
Os iates, os castelos, os jatos, os cães de estimação,
os carros movidos com a precisão mecânica do dólar norte-americano.
É que nem um parto de ferro de funge sairia do útero do homo faber.
A cada questão o seu feitiço. Fica na tua, meu irmão, que eu
fico na minha, não me estendas por aí, a dizer porque
kapuete, kamundanda ni kapoloboso , porque-porque, porque-porquê
eu próprio sou uma questão de Estado e nem questiono o meu feitiço.

 

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