“Brasilian way of life”: Angola e Moçambique
TV brasileira não é maningue nice
De Michell Niero
Encantados pela janela mágica do entretenimento, Angola e Moçambique deixam de saber o que está por trás das novelas da Globo; então, vamos abrir a caixa-preta

maningue nice= muito fixe na língua das ruas moçambicanas
Brazilian Way of Life: Seja pela TV aberta ou paga, modo de vida brasileiro baseado nas novelas chega a boa parte da África lusófona
A influência brasileira nos países africanos de língua portuguesa, especialmente em Angola e Moçambique, só tem crescido nos últimos anos. Pela tela da TV um Brasil disfarçado, construído com base em clichés e omitido cirurgicamente por meio de novelas, telejornais, programas de variedades e seriados das redes Globo e Record.
Incentivo ao consumo e ao materialismo, irresponsabilidade, superficialidade, manipulação e omissão. Palavras fortes, mas são adequadas ao se analisar a TV brasileira desde 1950, data das primeiras transmissões na “terra de Cristo rei”. Todas as lições que os brasileiros tiveram do “american way of life” estão lá, assim como o jeito especial de se portar diante da política, da violência, dos negros, do sexo, das mulheres e dos gays. A TV reflecte o comportamento do brasileiro e ao mesmo tempo influencia o modo que ele enxerga o mundo.
Podemos chamar esse conjunto de hábitos, costumes, crenças e valores assistidos por angolanos e moçambicanos de “brazilian way of life”. Estão lá nossos defeitos, nossas virtudes, nossa falta de carácter e tudo aquilo que convém mostrar, mesmo não sendo a realidade, desde que seja rentável economicamente à emissora.
Apesar do pouco tempo no continente, as duas emissoras, Globo e Record, conseguiram embutir no imaginário do africano falante do português esse “brazilian way of life”, que é visto como um modelo de sociedade possível, vindo justamente do irmão colonizado que mais se deu bem depois da independência.
O negócio do controlo remoto
Menina dos olhos africanos - 160 dos 500 mil que assistem a versão internacional da Globo vêm de Angola
Mesmo sendo oferecidos em pacotes de TV paga, as emissoras brasileiras despontam como vice-líderes de audiência em Luanda, capital e centro económico de Angola, perdendo apenas para os canais de TV mantidos pelo governo. Angola é a “menina dos olhos” da Globo por concentrar a maior parte dos assinantes do canal (160 dos 500 mil que assistem a versão internacional da Globo).
A TVCABO oferece a Record no “pacote base” e inclui a Globo no “bué mais”, uma espécie de pacote especial. De acordo com o site da empresa, para se ter as duas emissoras, o angolano precisa desembolsar 90 dólares por mês.
Além de Globo e Record, os pacotes de TV paga incluem também os canais da rede portuguesa SIC, conhecida por comprar direitos de transmissão das novelas da Globo. Dentre os canais abertos, a TPA (Televisão Pública de Angola) também exibe folhetins brasileiros, vindos da Globo, em sua programação.
Em Moçambique, a TIM (Televisão Independente de Moçambique) e a STV também realizam este tipo de procedimento, comprando novelas e seriados da emissora brasileira, além de poder contar com o pacote pago da mesma TVCABO.
Ao todo são quatro emissoras moçambicanas, uma pública e três privadas, todas elas seguem o modelo global de exibir uma novela ou seriado depois do telejornal. A Miramar, porém, exibe apenas novelas da Record e a TIM procura exibir também novelas portuguesas.
Tanto Globo como Record exibe praticamente a mesma programação transmitida no Brasil.
Algumas alterações de horário, retiradas de desenhos e filmes e inclusões de programas feitos especialmente a África lusófona são percebidas na programação da Globo para angolanos e moçambicanos. Programas como o seriado “Malhação”, que traz a realidade de uma parcela mínima da população brasileira em idade e são sucesso de audiência. Diferentemente do Brasil, a atracção é passada em dois horários na programação, uma na parte da manhã e outra no início da noite.
Outra diferença fica por conta do Jornal Nacional, que é exibido por volta da meia-noite, o que torna o famoso “boa noite” de William Bonner quase que um bom dia. Os espaços deixados pelas sessões de filmes são ocupados por programas como o Revista África, apresentado pela ex-miss Angola Lesliana Pereira, e atrações produzidas pelos canais GNT e Futura, oferecidos pela Globosat ao Brasil e Portugal.
Michell Niero é brasileiro, jornalista, pós-graduando em Globalização e Cultura pela Fespsp. Em 2008 idealizou a Revista O Patifúndio! e a mantém até hoje, graças a sua segunda paixão, a lusofonia, e aos colaboradores, verdadeiros amigos espalhados em cada território onde a língua portuguesa é exercitada.



