Passei a vida…
Passei a vida a servir
os meus dias passei-os a chorar
no meu mundo
meu inferno.
Os braços trabalhando
para um mundo alheio
os meus dedos musicando
para o mundo alheio.
Meu mundo
meu inferno.
E ainda choro hoje
mas de vergonha
de pejo
por ter vivido num mundo inferno
Sem ter tido ao menos alma para morrer.
1948
in "Renúncia Impossível", Agostinho Neto, Obra Poética Completa, página 131
Original manuscrito. Arquivo fls.41




