Crueldade
Caíram todos na armadilha
dos homens postados
à esquina
E de repente
no bairro acabou o baile
e as faces endurecerem na noite
Todos perguntam por que foram presos
ninguém o sabe
e todos o sabem afinal
E ficou o silêncio
dum óbito sem gritos
que as mulheres agora choram
Em corações alarmados
segredam místicas razões
Da cidade iluminada
vêm gargalhadas
numa displicência cruel
Para banalizar um acontecimento
quotidiano
vindo no silêncio da noite
do musseque Sambizanga
-um bairro de pretos!
in "Sagrada Esperança", Agostinho Neto, Obra Poética Completa, página 36




