Os animais de duas gibas
MARIA EUGÉNIA NETO

Andavam rumores sobre o desaparecimentos dos animais no deserto do Namibe e dizia- se que era por causa da guerra. Em tempos atrás aqui existira uma das mais belas reservas de animais do Continente.
Viviam aí os bichos em completa liberdade, pois a caça era proibida, matando a sede em lugares seus conhecidos - talvez em nascente nas grutas dos rochedos – e descobrindo também o seu alimento no habitat da planura ou nos pequenos oásis entre as pedras.
No Namibe, as temperaturas quentes do dia descem ao sol – poente, por isso, todas as noites o deserto recebe o orvalho resultante do vapor do ar , transformado em gotículas de água.
Assim , aqui e ali, algumas espécies de cactos o povoam, entre eles, a Welvitschia mirabilis, que só brota neste lugar.
O desaparecimento dos animais era motivos de conversa na vida quotidiana das pessoas.
Para as crianças tornou-se preocupação dominante nas suas vidas. E, no dia a dia, pensavam como haveriam de se certificar da verdade deste rumores. Até que num sábado quente de Janeiro, na folga dum fim-de-semana, um grupo meteu – se por um atalho de dissimulado por rochedos, o qual, tempos atrás, em dia de folgança, tinham descoberto, e resolveu ver onde este conduzia, tentando encontrar algum indício... Uma esperança secreta no coração lhes dizia que não poderia ser totalmente verdade os animais terem fugido pelo medo da guerra.
Sabia–se que um «furacão medonho» tinha passado por Angola, e tinha morto homens e animais, e que nas florestas e nas savanas também tinha havido razias... Isso era de facto verdade. Mas, mesmo assim, perguntavam-se se teriam fugido todos! Todos, mesmo, ali de Namibe, onde tantos animais houvera? Não, não queriam acreditar!
Não, não poderia ser! Por certo, alguns dos bichos deveriam ter encontrado um esconderijo, protegendo-se das mãos assassinas que dizimavam tudo à sua passagem! E foi com esta certeza, com esta esperança, que se puseram a caminho.
Marchavam agora em plena planície à torreira do sol ardente, seguindo em frente com decisão de chegar em algum sítio onde lhes dessem informações.
Caminhavam.
Caminhavam e cantavam para se alegrarem.
Já faziam horas de percurso. Alguns dos menos resistentes começavam a ver tudo a andar à roda e o Sol a dançar amarelo e vermelho. Foram obrigados a parar.
Como por milagres, avistaram um arbusto que nasceram na frestas de uma rochedo, cuja copa dava já alguma sombra. Para aumentar esta, despiram as camisas e ataram-nas aos galhos, improvisando um toldo.
Sentaram-se.
Enquanto descansavam, comeram o lanche e mataram a sede.
Já refeitos do cansaço encorajaram-se mutuamente a prosseguir. A não desistir.

Alias, voltar assim, sem saber nada e sem levar notícias alguma à aldeia, era deveras humilhante. E o correctivos dos pais pela aventura empreendida sem o seu conhecimento ainda seria mas difícil de aguentar!
Mas agora prosseguir para onde? Qual o caminho?
O atalho desembocara nesta extensa planície, onde eles já caminhavam há horas, sem ver algum indício de presença animal! Nem uma pegada! Nem um excremento!
Ah! Não fosse a esperança secreta a impeli-los e eles teriam voltado para trás! Mas as palavras dos povos e as dos caçadores, « que até mesmo as rolas e os coelhos tinham ido embora», martelavam-lhes a cabeça.
Ergueram-se e retomaram o andamento. Não sabendo qual a direcção certa, caminharam em frente.
Em frente, sempre em frente. Caminhavam...
Tinha refrescado, pois o Sol estava a caminho do poente. Só então se lembraram de que o Sol não tardaria a esconder-se aqui, para ir, além, alumiar a outra parte do globo. Dentro de algumas horas, tudo seriam trevas e não poderiam dar mais um passo! Aceleraram o andamento para vencer a distância, receosos das noite, mas determinadas.
Continuavam. Continuavam mas nada viam que lhe assinalasse qualquer presença animal. O horizonte parecia não poder ser nunca atingido...
Continuavam. Continuavam a caminhar em frente, na planura infinita, mas nada viam que não fosse areias, pedras e alguns cactos!
A incerteza começava a querer se instalar no coração de alguns!
Mas eis, repentinamente, na frente deles, como uma visão que se lhes deparasse, um animal colossal, olhando-os divertidamente!
E os miúdos, arregalados os olhos, balbuciaram:
- Ué, que é aquilo?
Todos estacaram, como se petrificados, obedecendo ao mesmo comando que os tinha impedido a andar.
- Como não o vimos há mais tempo? – disseram.
Na sua frente, nem mais , nem menos, mostrava – se um gigante cor de areia com duas valentes gibas no dorso!
- Ué , mamã! Deste nunca ouvimos falar! Não o vimos porque ele se confunde com a paisagem!
De facto, o animal tinha a cor das terras amarelas das dos desertos. As pernas altíssimas, com patas largas e unguladas, estavam adaptadas para as areias e as grandes caminhadas. O pescoço comprido e felpudo, com grandes pelos descendo ao longo da garganta, era ai por metade, em altura, do da girafa. E as gibas, onde uma pessoa se podia escarrapachar, completavam, de relance, as características do animal.
Ah!, como era formidável este encontro…
Já se sentiam compensados, mesmo se outra coisa mais não vissem!
Mas, que diabo, que bicho seria mesmo aquele?
Seria um olongo que partira a espinha dorsal e a soldara mal?
Mas o olongo tem chifres (enquanto aquele tinha apenas duas orelhas) e o pêlo é preto e luzidio. E verdade que o olongo é quase assim tão grande.
Mas viram bem que olongo não pudera ser!
Então que seria?
Seria girafa? Girafa também não, pois a girafa tem, sim senhor, as pernas altas, mas o pescoço é muito mais longo, e sobretudo, o corpo é malhado e o pêlo é raso! E na tentativa de descobrir que bicho seria aquele, um deles aventou se não poderia ser avestruz...
– Credo, palerma! – E riram todos. Por muito pouco que soubessem, sabiam que o avestruz era uma ave, pois tinha bico, penas, e… punha ovos! Os célebres ovos de avestruz, tão afamados! Mas é que , de facto, não conheciam aquele animal! E, como ele se mantivesse na sua frente, barrando-lhe o caminho, acharam por bem sentar-se e aguardar…
O bicho fitava-os com ar amável. E logo que se sentaram, ele esticou o pescoço em curva para frente, sorveu o ar, e soltou como quem diz, uns berros esquisitos…Aguardou uns instantes, e logo repetiu o chamamento. Mas como nada, ou ninguém, lhes respondesse, deu meia volta e pôs-se a andar com passo cadenciado na direcção de um ponto brilhante no horizonte.
Os miúdos seguiram-no imediatamente. O coração queria salta-lhes do peito, tanta era a emoção e tanta era agora a certeza de que não fora em vão a imensa caminhada. E o grupo ia nas pegadas do grande ruminante, sabendo que os conduziria a um ponto certo.
Passava-se já algum tempo desde que o seguiam, quando começaram a notar que o ponto brilhante no horizonte dera lugar a linha brilhante prateada, a qual enviava reflexo como um espelho…
- Nossa! Parece água! – disseram os miúdos.
E com ansiedade crescente, mais andava o bicho e mais andavam eles.
Agora, a linha para se ir transformando num rio de águas límpidas!
- Nossa! Água aqui! Como é isto possível?!...
Os miúdos ficaram de bocas aberta, quase sem puserem falar, tanta era a surpresa! E o caso não era para menos, pois neste rio em pleno deserto eram tantas as zebras, tantos os elefantes, os olongos, as gazelas, as cabras de leque, que um espectáculo cortava a respiração.
- Quem poderia ter imaginado isto?
- Nós bem dizíamos, nós bem sentíamos, que os nossos animais não nos poderiam ter abandonado!!
E os miúdo, loucos de alegria, atiraram-se à água, refrescando-se e matando a sede ao mesmo tempo!
Misturaram-se com a bicharada, abraçaram as gazelas e beijaram os seus filhotes .
Todos os animais exultavam de os ver ali, porque os animais amam as crianças, pois ela
São suas amigas sinceras. Entre os que estavam na água, só o elefante.

refilou um bocado pela presença deles no rio, mas a zebra, ferida por tal atitude, deu-lhe um ligeiro coice e pediu-lhe que não fosse desmancha-prazeres!
E o elefante, deixando-se convencer, colaborou ate no banho dos miúdos, fazendo com a tromba um bom chuveiro…E vai chape daqui, e vai borrifo dacolá, ficando todos um bom momento a brincar!
Só quando se sentiram exausto, os miúdos se lembraram de olhar em volta. Só depois olharam, realmente, para o rio-lago, um grupo de animais da mesma espécie daquele que os tinha conduzido ali! E dando-se conta da falta de correcção para com quem os ali trouxera, saíram da agua a correr e foram afagar-lhe o focinho! Pediram perdão por, na sua alegria imensa de terem reencontrado os bichos, dele se terem esquecido!
Os grandes animais, complacentes, deixaram-se afagar e perdoaram-lhes.
Que pena não terem estado também na agua!
O facto de não se banharem com os outros ensinou as crianças que estes eram os verdadeiros senhores dos desertos, pois podia sobreviver com escassez de água, não só lá no deserto de onde provinham, como em outro qualquer desertos. E mesmo nos oásis, como era o caso, não alteravam os seus hábitos!
De facto, o Namibe não era o seu berço. Eles eram de desertos mais áridos, onde as temperaturas se elevam a quase 50ºC. Não se banhavam frequentemente, nem tão-pouco bebiam água todos os dias.
A água, de que precisavam para viver, bebiam - na em grandes quantidades de vez em quando, armazenando-a em depósitos no interior do seu corpo, para ser utilizada aos poucos, quando necessária. Exactamente como a panca em certos ruminantes armazena a água.
Mas, então, perguntavam-se os miúdos, se eles têm este comportamento estranho em relação aos hábitos dos outros, como vieram parar aqui? Há quantos anos?
Mas os miúdos depressa deixaram esses pensamentos. Estando ali, os bichos eram agora realmente angolanos. Isso chegava!
E, dependurados ao seu pescoço, gritaram à alegria do reencontro!
- Vivam todos os seres da nossa querida Pátria angolana!
Vivam os nossos lindos animais!
Vivam as plantas do nosso desertos!
Viva a Welvitschia mirabibilis!
E os bichos todos em coro, disseram:
VIVA! VIVA!VIVA!
Que alegria! Que aventura!
A noite cai agora. O sol escondera-se totalmente. Com pressa, os animais recolheram ao seus habitat para se proteger da noite, pois os felinos gostam de encher a barriga nessa altura…
Seguindo o exemplo, os miúdos afastaram-se um pouco da água e procuraram as areias quentes, aninhando-se para dormir.
Então, coisa linda de ser vista!, os gigantes dispondo-se em círculos, aninharam-se também, não só para os proteger, como para os aquecer, pois as noites são frias no deserto! Pareciam misteriosas sentinelas vigiando na noite, seus pescoços erguidos, auscultando…
Os miúdos adormeceram, com uma alegria tão grande que ate esqueceram a fome e o medo ralho dos pais.
Amanhã despontou. Raios de sol temerosos temerem nas suas pestanas chamando-os.
E vai um abre um olho, outros estende um braço, outro esfrega os olhos…
Eis que uma força colectiva os impulsiona e ergue de um salto!
-Já é dia! Já é dia! – disseram em coro.
Os grandes animais já estavam no lago a refrescar-se. O céu raiado de vermelho era sintoma de um dia grande calor.
As zebras riscadas davam pinotes e pareciam burricos em hora de lazer. As cabrinhas de leque pastavam com gazelas nas ervas tenras e verdes, à volta do lago.
Tudo era tão lindo! Tudo era paz! Aqui eles prometeram muitas vezes voltar. Mas agora era tempo, tinham de refazer o caminho, pois os pais deviam estar terrivelmente inquietos, sem saber onde estavam!
Agora surgiram os problemas da fuga e todas as explicações a dar o castigo que receberiam por terem passado uma noite fora de casa sem nada avisar!
Mas tinham de partir…
- Bem - disse o mais velho -, temos de ir e enfrentar tudo, pois não podemos deixar por mais tempo os nossos pais e amigos, sem saber onde estamos, aflitos à nossa procura. Quando souberem da nossa descoberta, talvez nos perdoem pelas preocupações que lhes demos.
E dispuseram-se a partir, olhando, contristados, todos os bichos que ali estavam!
-Que lindos! Que lindos são assim livres! – disseram, lançando-lhes um ultimo olhar.
Mas o momento chegara, e eles tinham de ir.
-Adeus, até à vista, amiguinhos!
E os bichos, cada um respondendo na sua voz natural, disseram também adeus.
Veja-se a algazarra que era…
Os bichos repetiram ainda muitas vezes o adeus e recomendaram que voltassem. E os miúdos assim o prometeram.

Estavam a querer pôr-se a caminho, quando os gigantes se ajoelharam e lhes ofereceram o dorso para os transportar.
Os miúdos olharam-se temerosos, mas um mais corajoso escarrapachou-se por entre as bossas e logo todos fizeram o mesmo!
Em fila indiana, percorreram as areias até chegarem ao povoado. O povo, vendo-os chegar assim montados, esqueceu tudo e gritou:
- Vêm em camelos! Vêm em camelos!! Aiué, os nossos camelos que pensámos desaparecidos para sempre!!
Mas logo, relembrando a fuga:
- Xé! Onde vocês estiveram?!! Procurávamo-los toda noite pela aldeia inteira! Então, sai-se de casa sem mais para quê? Esperem só!...
Os camelos, descontentes, berram em desacordo pelos ralhos. O povo entendeu e perdoou aos miúdos pelo susto que eles lhes tinham causado. Estavam ali são e salvos, era o que agora interessava.
Então os pioneiros contaram a aventura maravilhosa.
O povo ficou tão feliz, tão contente, que até se sentiu menos só naquela aldeia sobre as areias ardentes!
Mas as crianças fizeram-nos jurar que o segredo não sairia dali. O oásis era pertença da aldeia. O oásis tinha de ser protegido!
O povo prometeu guardar o segredo.
Foi ofertada água aos camelos.
Eles beberam a água como um grande licor da amizade que sele um pacto que todos se comprometam cumprir.
- Não se matará! Banir-se-à a caça!
Assim se fará, disse o povo, para que estes animais que restaram repovoem de bichos o deserto, as savanas e as florestas, pois os que lá houvera antes, o dizimara-os…
Assim foi prometido. Assim se faria.
Os camelos foram acompanhados até ao inicio do atalho pelos miúdos e pelo povo.
- Até à vista, até à vista, cumpriremos o que prometemos, dizei-o aos outros animais.
Com um urro colossal, os gigantes responderam:
- Até à V …I … S … T … A
O povo regressou às casas.
Ah!, os nossos camelos, que alguém há muitos anos, quando as estradas não eram senão atalhos, trouxe do Sudão para o transporte no Namibe…
São nossos agora! Alguns já nasceram na nossa terra!
O vento do deserto enviou, de novo, o urro alegre dos camelos:
Até à vista! Até à vista! A… T… É À V… I… S… T… A…



