“O Dia Seguinte dos Dirigentes e Governantes” vai a debate nos Diálogos em Família
A Fundação Dr. António Agostinho Neto promoveu no dia 3 de Maio, em Luanda, no Auditório das AAA, a terceira edição do Diálogos em Família dedicada ao “Dia Seguinte dos Dirigentes e Governantes”.
Os Diálogos em Família são uma plataforma inclusiva de participação cívica e debate de temas pertinentes, inspirada na preocupação de Agostinho Neto com a família, local privilegiado para o diálogo franco, patente de forma explícita num ensaio denominado “A nova ordem começa em nossa casa”, publicado no jornal “O Estandarte”, nos anos 40 do século XX. Para estes diálogos foram convidados dirigentes, governantes e intelectuais de diferentes sensibilidades políticas, com experiências distintas, para abordarem a virtude destas questões, do seu ponto de vista. Infelizmente, a Fundação foi informada, em vésperas do evento, sobre o impedimento de alguns dos prelectores do MPLA.
A presidente da Fundação, Maria Eugénia Neto, ao discursar na cerimónia de abertura do certame disse ser fundamental a reflexão sobre a herança e o legado deixados pelos governantes, a necessidade da alternância e limitação de mandatos, os dilemas e conflitos provocados pela, e durante, a escolha do novo líder, a melindrosa questão das vinganças e ajustes de contas nos dias seguintes.
Ressaltou ainda que outra grande preocupação dos dirigentes e de suas famílias prende-se com o seu património. Como manter um nível de vida digno quando se deixa o poder? O ex-dirigente não deve pautar a sua conduta, enquanto ao serviço público, pela obsessão de garantir a sua sobrevivência e a de sua família. Então como é que é o dia seguinte dos nossos dirigentes? Como se pode vencer o medo dos “outros”? Como gerir a incerteza das mudanças? Como garantir a continuidade do saber fazer e evitar retrocessos?
Eugénia Neto apelou à busca de consensos, evitando o pecado da unilateralidade, da perspectiva única, para que a democracia seja uma fonte de felicidade e fomente a participação, a auto-estima, a segurança, a confiança no dia seguinte, a responsabilidade e o senso de justiça individual e comunitário.
Para moderar o primeiro painel, a Fundação convidou o reputado economista São Vicente, juntando à mesma mesa destacadas figuras do panorama político actual e do passado.

O sociólogo, escritor e deputado João Melo, dissertou sobre a “Herança de quem parte”. Apresentou duas perspectivas sobre o legado: aquele que o dirigente leva consigo e é a forma como encara o seu mandato, assim como a herança de governação que deixa para os governados. Traçou considerações sobre a forma de analisar o desempenho do dirigente, tomando em consideração todas as premissas conjunturais e geográficas.
O ex-Primeiro-ministro da então República Popular de Angola, Lopo de Nascimento, hoje deputado, discorreu sobre a “Orfandade de quem fica”. Lopo de Nascimento evocou a obra e a carreira política exemplar de Agostinho Neto, do sentimento de orfandade e abandono quando um dirigente sai de cena. Os membros da equipa do dirigente que partiu são muitas vezes substituídos o mais rápido possível e os que permanecem são tratados sob um prisma de desconfiança e de grande distanciamento.
Lopo do Nascimento referiu-se aos dois dias seguintes por que passou na sua vida política, considerando-os difíceis pela forma indigna de tratamento ulterior. “Não é pela pessoa mas pelos cargos que a pessoa exerceu” disse. Um dirigente não pode estar a ocupar um cargo da mais alta hierarquia e no dia seguinte achar-se numa situação que não dignifica os postos exercidos. Tipificou o actual exercício da política como um elevador social e financeiro.
O Dr. Marcolino Moco, ex-Primeiro-ministro da República de Angola, jurista, escritor e professor, encerrou o primeiro painel falando sobre “A alternância e a limitação de mandatos”.
Para Marcolino Moco a sociedade angolana deve ser mais aberta. De forma contundente, criticou a postura actual de se evitar delimitar os mandatos ou a criação de estratégias para a perpetuação no poder. Por várias razões, incluindo as biológicas, defendeu que o exercício prolongado do poder produz distorções comportamentais nocivas à sociedade. Clarificou o sentido de alternância, não significando necessariamente uma mudança de partido político mas a possibilidade de escolha do cidadão.

No 2º painel Nelson Pestana “Bonavena”, politólogo e escritor, dissertou sobre “A escolha do novo líder”.
Iniciou a sua intervenção afirmando que o tema nem sequer teria sido escolhido se não existisse, de facto, um tabu ao redor da escolha do líder e da sua sucessão. Exemplificou dando nota de todos os delfins que apareceram no cenário político e que se estatelaram redondamente no chão, ou pelo menos chamuscaram as suas asas, tal qual Ícaro da mitologia grega ao aproximar-se demasiado do sol.
Nelson Pestana ressaltou ter havido um recuo democrático quanto à escolha do Presidente da República na actual Constituição da República. Elogiou a melhoria dos direitos, liberdades e garantias fundamentais mas considerou-os um “rebuçado” para contrapor à questão da sucessão do mais alto magistrado do país.
“O problema não é quando se escolhe ao mesmo tempo o PR e os representantes na Assembleia Nacional, é antes sim, sabermos se ao escolhermos o PR podemos escolher divergentemente outros representantes ou ao contrário”. Não há liberdade de escolha, rematou.
O economista e professor universitário, Vicente Pinto de Andrade, falou sobre “O Património das Famílias”.
Pinto de Andrade começou por fazer a destrinça entre os tipos de patrimónios, realçando o valor do património simbólico. Para o economista, é a família que deve constituir preocupação primordial do Estado. Porque se as famílias não forem o esteio do ponto de vista económico, social e cultural disse o prelector, “não existe país”.
É fundamental que se dê às pessoas condições, em termos económicos, para o acesso à educação e consequentemente terem bons empregos. Segundo Vicente Pinto de Andrade, “a educação é o maior património que uma família pode ter”.
A plateia também interagiu com os prelectores. Fez parte dela, o escritor e actual director geral do jornal Cultura, José Luís Mendonça, o qual criticou a posição de supremacia dos EUA no mundo quando se fala em modelos de democracia. Vicente Pinto de Andrade é de opinião que os EUA já não têm o peso que tinham no passado, por haver uma deslocação do poder para a Ásia e África.
“Ficar em Angola ou partir” foi o tema que encerrou este painel com a dissertação do escritor e jornalista, Sousa Jamba. Após a cessação do mandato, alguns ex-governantes desaparecem do escrutínio dos holofotes públicos. Muitos preferem deixar o país durante algum tempo, gerindo a transição de forma privada. Sousa Jamba relatou a sua experiência na Bélgica, onde encontrou muitos congoleses que já não se sentiam bem na Europa. Falou da experiência zambiana e da evolução havida nesse aspecto. Concluiu que o melhor é mesmo ficar no país.

Á guisa de encerramento, o Dr. São Vicente disse que os Diálogos em Família devem ser encarados como um facto normal, tal como ocorre em qualquer outra sociedade e lançou o repto de que é fundamental apostar-se mais na “memória” do país de modo que os próximos Diálogos não sejam de amnésia.
“Está na hora de começar a escrever, nós precisamos também que o “Dia seguinte” dos nossos governantes seja fixado, para que se revele aquilo que foi bem feito e o que não foi”.
Participaram do evento representantes de distintos órgãos, deputados à Assembleia Nacional, representantes de entidades diplomáticas e dos órgãos da Defesa, jornalistas, estudantes e membros de organizações da Sociedade Civil.



