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CABINDA O RIO CONGO NUNCA FOI UMA FRONTEIRA

É uma das grandes constatações feitas pela historiadora, que foi, duplamente, britânica e norte-americana, Phyllis Mike Martin, no seu clássico “The External Trade of the Loango Coast (1576-1870). The effects of Changing Comercial Relations on Vili Kingdom of Loango”, obra que acaba de ser traduzida em português e editada, pelos Arquivos Históricos de Angola.

Estendendo-se sobre 266 páginas, com ilustração de capa que retomou uma famosa estampa do inevitável holandês Olfert Dapper, “O Maloango presidindo a sua corte”, o livro da Professora Jubilada da Universidade de Indiana, nos EUA, que faleceu, meses atras, sustenta-se numa dezena de capítulos e anexos, que planteia, numa tradução do discreto mas eficaz, João B. Borges de Sá, como introdução geopolítica e geoeconómica, a articulação da entidade política de Loango com os seus vizinhos, no seculo XVII, e, como sustento, as trocas de produtos com negociantes no litoral, entre 1576 e 1630 e o inicio do invasor trafico de escravos, entre 1630 e 1670.
 
Analisa, igualmente, a evolução das rivalidades europeias perante as exigências comerciais das autoridades da Loango Coast, entre 1670-1793, a complexidade das negociações, as modalidades de abastecimento dos mbika, as previsíveis complicações do trafico de cativos, entre 1793 e 1870, e, finalmente, os inevitáveis efeitos económicas, politicas e sociais de toda esta frenética movimentação mercantil na sociedade loango.

A autora inseriu algumas mapas cujo um, aponta varias nzila de abastecimento de mayombe, no quadro do comércio a longa distancia, ao sul do River Zarry. Esta era conhecida, genericamente, como Nzila Kakongo.

CONEXAO UMBILICAL

Os Mubiri (Vili?), captadores de escravos, atravessavam, naturalmente, o Esau.

A investigadora propõe, a esse efeito, uma análise técnica dos sítios de travessia fluvial, antigos, bastante convincente. São esses lugares que dão credito as várias recitais sobre os ties of relationship entre os Ntotila e os Maloango. A base deste relacionamento e a hipótese da origem mayombe de Nimi a Lukeni, fundador do tecido federativo do país da pantera.

Assinala-se, em 1693, o batismo por missionários capuchinhos, em Lemba, na margem esquerda do River, de 200 descrentes, reconhecidos como negociantes mubiri.

Oportunistas, esses kimbadi instalaram-se em São Salvador intrometendo-se nas rivalidades políticas do decadente federação Kongo, nas oportunidades comerciais e no inculturante movimento dos Antonianos, animado pela Kimpa Vita. Em 1857, ainda viviam em São Salvador, comerciantes da Loango Coast.

Phyllis analisa, em seguida, a conexão umbilical entre o Soyo e o conjunto Loango/Ngoyo/Kakongo.
As caravanas setentrionais desembocavam na Baia de Cabinda ou a da Malemba com os seus amarrados de Congues, Songues, Mondongues ou Mondongoes.

A confrade de David Birmingham, na History of Central Africa, confirma a evolução do bloco civilizacional a volta do Nlangu Congo, pelo uso do kikongo, ao norte e sul do unificador rio, e, a continuação das trocas, seculares, de objetos de artesanato em cobre (nguela) ou rafia.

INTERACAO FLUVIAL

Alista, igualmente, como, nos próprios, registamos, no início dos anos 80, durante uma missão de levantamento etnográfico no município Soyo, uma relativa circulação de mulheres, no quadro da saudável exogamia étnica.

A interação fluvial cresceu com o desenvolvimento da imparável Colonia de Angola, e, a este respeito, a antiga estudante da celebre School  of Oriental and African Studies, e categórica, quando afirma que os laços históricos entre os povos que viviam, ao norte e a sul do Nzadi foram consolidados pelos interesses europeus.

Facto sintomático, nos seculos XVII e XVIII, as fontes históricas das potências rivais a Portugal, Franca, Holanda e Inglaterra, reportavam, muitas das vezes, a globalidade do litoral, desde Cabo Lopes, no atual sul do Gabão ate São Felipe de Benguela, como “Angola”.

As relações interfluviais eram tão sólidas que o tráfico negreiro clandestino para Cabinda Bay tinha como epicentro a foz do Zarry.

E sobre a existência deste bloco civilizacional e histórico que Portugal ganhara, na capital alemã, nos meados do seculo XIX, o enclave de Cabinda.

E, para consolidar a sua posição neste território, apertado entre as latentes ameaças belga e francesa, e limitar os efeitos da descontinuidade territorial, Portugal institui, em 1887, a cidade de Cabinda como capital do novo Distrito do Congo.

A relevante obra, ora, traduzida de Phyllis Mike Martin confirma a complexidade histórica da partilha do continente africano, nos meados do seculo XIX, e, conforta a justa posição, aprovada, pela União Africana, de respeitar as fronteiras dos atuais Estados, herdadas da divisão colonial.

Por
Simão SOUINDOULA
Historiador. Perito da UNESCO
C.P. 2313
Luanda
(Angola)
Tel. : + 244 929 79 32 77
929 74 57 34