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Visão histórica no discurso de Agostinho Neto

A questão da Nação em Angola:
 
 
Visão histórica no discurso de Agostinho Neto

A presente abordagem brotou de questões actuais, reflectindo preocupações com sentido social e intelectual da realidade angolana. Considerando, deste modo, a abordagem dos professores Paulo de Carvalho, Victor Kajibanga e do americano Gerald Bender, sobre o projecto de construção da Nação em Angola. Um estudo realizado por Paulo de Carvalho (c.f. 1998), de pesquisas feitas sobre o assunto, resulta numa conclusão: A inexistência de Nação angolana, derivada da não existência de uma consciência nacional angolana. Evidenciando deste modo que não se pode dizer que haja mitos e memórias comuns aos angolanos, assim como uma cultura pública comum. Isso faz com que a identificação dos angolanos segundo esta proposta seja mais étnica e local.

Num outro estudo, Victor Kajibanga (c.f. 1999) demonstra que não temos em Angola uma cultura nacional, mas temos um projecto de formaão de uma cultura nacional, o projecto de angolanidade, forjado na luta anti – colonial, pela independência nacional. Embora considere que o período que se seguiu a independência nacional não tenha vigorado um sistema sólido de referências histórico – culturais que materializasse o projecto de angolanidade, derivado da politização das especifidades culturais, associada a guerra que nesta concepção adiaram o projecto da angolanidade. 
Um terceiro exemplo é a visão de Gerald Bender (c.f. 2000) onde demonstra que a criação de um Estado é relativamente fácil, mas construir uma Nação é extremamente difícil, não só em Afriaca como em qualquer parte do Mundo.
Por outro lado, afirma que uma Nação pressupõe que todos os que vivem dentro das suas fronteiras se identifiquem entre si como concidadão. Atesta ainda que, em Africa, o desafio de formar nações, a partir de Estados, é mais difícil do que na maioria das outras partes do mundo. Defendendo nesta abordagem que os dirigentes regionais ou locais representam, muitas vezes, o maior desafio no nascimento da Nação.
Na sua opinião, Angola parece ter ultrapassado o problema da nacionalidade etno-linguística. Enquanto que a consciencialização existe em todas as sociedades, ela é menos importante em Angola do que em qualquer país de Africa.
Relativamente ao conceito Nação, o Professor Vicent Barrailler (c.f 2000) da Universidade de Paris apresenta duas concepções opostas para o conceito. 
Uma, de origem alemã, na qual a Nação é definida como uma comunidade cultural baseada em particular na sua língua, religião, ou até mesmo na raça. A outra, de origem francesa, que afirma basear-se a Nação no consentimento e no desejo claramente expresso por um grupo humano de viver em comum.
Ernest Rena, por exemplo, num célebre discurso pronunciando em Sorbonne (França), em 1882, sobre o tema “ O que é a Nação?”, considera que ela é uma alma, um principio espiritual (…), o resultado de glórias comuns e é, também, o “ter feito coisas juntos, querer continuar a fazê-las”.
Assim, optamos caminhar pela segunda proposta, onde a comunidade de língua, o passado histórico e das tradições são elementos importantes na constituição do sentimento nacional.
Porém, o factor determinante é a vontade de viver em comum.
  
         
 O esforço de Agostinho Neto

O esforço de António Agostinho Neto, em aplicar um princípio de base nacional para o futuro estado, conheceu muitos obstáculos em Angola, mas não há duvida que ele constituiu um factor determinante para a consciencialização de parte considerável de angolanos para ultrapassarem problemas raciais, étnicos, linguísticos e religiosos, factores importantes para a construção de um projecto da Nação. 
A colonização Portuguesa, de forma involuntária com a introdução do preconceito racial agravado pela violência do seu carácter, suscitou também a consciência nacional que correctamente orientada levaria o início do projecto de construção da Nação em Angola.
A estabilidade política, igualmente de justiça social, concretização de uma economia nacional que preconiza a distribuição equilibrada das despesas nacionais, o permanente diálogo cultural entre os angolanos e o respeito pelas minorias étnicas revelaram-se aspectos fundamentais do discurso de Agostinho Neto que levaria os angolanos a concretização do projecto da nação.
Apesar do carácter da colonização portuguesa, das diferentes visões do nacionalismo moderno angolano, da guerra-fria que passou para segundo plano o papel do então colonizador consolidarem os complexos da edificação da Nação angolana, o discurso de Agostinho Neto destaca o constante diálogo sócio-cultural entre os angolanos para que o projecto de construção da Nação não se mergulhe nos incontornáveis factores externos, importante catalisador para a desintegração interna, bem como nos conflitos endógenos inter-étnicos em desfavor da unidade da Nação.
A independência proclamada por Agostinho Neto, numa alusão a legitimidade, quer seja nacional através de uma parte considerável de angolanos internacional através da comunidade, é a maior prova do seu papel na educação patriótica dos angolanos. Prevalece, assim, como o acontecimento mais importante para a história contemporânea de Angola, o que lhe confere o mérito de líder político mais importante deste período. Não significa que os destinos dependem subjectivamente das grandes personagens, porque não é a personalidade que cria a história, mas pelo contrário é a história que forma personalidade onde os líderes políticos fazem vincar os seus ideais
A envergadura do momento histórico em que viveu. António Agostinho Neto personificou e concretizou a sua actividade as necessidades objectivas e insistentes da época, traduzidas nos interesses radicais de grande parte do povo angolano aos valores humanos universais e soube pô-los em prática 
O paradigma angolano dominante pode ser encarado como o fortalecimento da Unidade e Reconciliação Nacional, onde os angolanos aspiram, na jovem democracia, o respeito pela diferença na sua identificação como filhos da mesma Pátria.



Autor: Paulo Nzaji

In Jornal EME, 1ª Quinzena de Novembro de 2005