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Deputado considera dever de estado difusão da obra de Agostinho Neto.

NETO E A CONSTRUÇÃO DA NAÇÃO ANGOLA UTOPIA TORNADA REALIDADE SIMPÓSIO SOBRE O CAMPO DE COCETRAÇÃO DE TARRAFAL 1 DE MAIO 2009, CABO VERDE.

"A poesia de António Agostinho Neto e o Discurso Político Nacionalistica"

Joao Pinto¹

I-Questões Prévias

Fomos convidados pela Fundação Dr. António Agostinho Neto para participamos nesta reflexão e escrevemos algumas linhas sobre a majestosa figura da nossa História contemporânea, nossa identidade_ Dr António Agostinho Neto/Kilamba kya yxi (intérprete das divindades aquáticas, Senhor da terra, líder espiritual, na língua Kimbundo). Agradeço pelo convite, sentindo-me lisonjeado falar ou escrever sobre o fundador da Nação Angolana, o ícone da angolanidade com a «Sagrada Esperança e Renúncia Impossível». Mas reconheço o embaraço de pronunciarmos sobre alguém que não conhecemos pessoalmente, pois, quando viveu e posteriormente a sua morte não tínhamos idade ou consciência sobre o sentido da pátria, embora na escola e nas actividades juvenais, tenha tido um contacto. Mas é nos mestrados Histórias de Áfricas na Faculade de Letras de Lisboa (Clássica), em Estudos Coloniais e Pós-Coloniais na ex Unl-Lisboa, que tive a possibilidade de uma leitura mais cuidada sobre a nossa consciência estética, consignada no monumental ou hino à angolanidade "Sagrada esperança"²

Como Professor de Ciências Políticas e de Direito público, fomos obrigados em estudá-lo, conhêce-lo e compriendê-lo. Reconheço que é ousadia, jactância, mas também um dever patriótico, instrumento utilizado para compreender o pensamento de Neto_ a razão de combater o colonialismo _alienação do homem angolano, coisa que ele combateu desde muito jovem, segundo Mourão (1989: 313); sua poésia é politica, épica busca a força anímica de um povo, sua identidade sua História; retracta um período específico de 1947/60, segundo Chabal (1989:119).

Vamos procurarar descrever aquilo interessa para um docente de Ciências Politicas e Direito, mostrando ou interpretando o impacto da poesia de Agostinho Neto no imaginário angolano de liberdade "A Sagrada Esperança e a Renuncia Impossivel" serão objecto de referência obrigatória para de forma exemplificativa, transcrevermos os poemas e sua utilidade poliítica especifica. Sem perder de vista que é uma analise post mortem do autor, obrigando-nos assumirmos as conclusões inerentes. O que aqui escrevemos é uma análise teorética,, assumindo desde já, os erros ou falhas, é o nosso ponto de vista como livre pensantes.

II - A Poesia de Neto_Utopia e realidade

Escrever sobre o poeta Dr. António Agostinho Neto, é falar da utopia realizada, a Historia reposta e a dignidade do Angolano corporizada. A Poesia de Neto pode ser considerada como épica, evoca todo um passado do povo Angolano sem exclusões éticas (mesmo quando escreve em Kimbundu, há uma identidade que manifesta e exalta), exalta as tradições, denuncia a humilhação, escravatura, colonialismo, discriminação ou racismo com uma subtileza "assustadora" para um homem do seu tempo, como no Poema «Velho Negro», denúncia sobre as práticas de exploração do homem africano negro, "diabolização, coisificação" pelo colonizador³. O Neto Poeta, ultrapassa o estadista e criador da Nação Angolana⁴, somatório de todo imaginário de ser e estar como Angolano. A Nação cultural foi descrita como um todo, a Africa e o homem negro, o humano sem cor, mas de valores; sendo por isso, um poeta que representa a sublimação da Angolanidade, como no poema «Adeus a Hora da largada»; «Caminho do mato» e «Comboio Africano». Estamos diante de vatcínio sobre a luta pela libertação das consciências africanas, sobre o sentido de homens e nações esbulhadas de seus bens e seus valores. Neto é também um poeta filosófico, visionário e historiador é um homem comprometido com a humildade. É um politico, por preocupar-se com o bem comum do homem africano. Eis a razão de seu inigmatismo imanente como homem do mundo, mas eminentemente negro africano; parece um paradoxo!, mas é próprio dos grandes homens e pensadores em busca da verdade e da justiça como acontece com seu poema dedicado à sua amiga e poetisa de S. Tomé e Princípe, Alda do Espirito Santo, sobre o massacre Batepá, de S. Tomé, em 1953. No poema À reconquista, mostra as alegrias, coloridos e festividades do homem africano, mas clama para não ficar nas memorias, nem nas tristezas sobre o passado; o poeta parece evocar uma acção dinâmica e actual sem que a introspecção evoque depressões, mas dever de combater qualquer ostracismo com (…) «Ninguém nos fará calar ninguém nos poderá impedir o sorriso dos nossos lábios não é agradecimento pela morte com que nos mata.

Vamos com toda Humanidade conquistar o nosso mundo e a nossa Paz.»( …)

Estamos diante de um libertador que tem noção quase "transcendental" para opôr-se aos paradigmas existentes, mas que combate elegatemente, fineza e elevação como no poema "Sinto na minha voz"

« Sinto na minha minha voz as vozes duma multidão

No coração sinto um mundo

No meu braço um exército


A multidão calou

O mundo perdi-o

O exercito foi vencido

Mas a multidão silente não morreu

O exército vencido não desapareceu

E no coração tenho a certeza

De que o amanhã não será só Ilusão.»

O Poema escrito em 1949, mostra como estamos diante de um homem que tem noção da sua capacidade de liderança quase "profética", pois em 1975, derrubou inteligentemente forças organizadas como a ELNA da FNLA e FALAS em Luanda, para não dizer que conquistou o poder de forma pouco ortodoxa na Capital e foi conquistando a legitimidade internacional, o regime colonial e os seus interesses foram derrotados⁵ . Estamos diante de um homem carismático, líder natural, completo intelectualmente, moralmente e profissionalmente⁶.

III - Perfil do Líder Natural e Político


Perfil de Liderança de Neto, parece tímido e discreto, mas determinado, afirma « eu não espero sou aquele por quem se espera»; estamos perante uma personalidade que sabia o queria para onde iria; não havia «falsas modéstias», segundo o Eng° José Eduardo dos Santos (2001), Era determinado como que guiado por uma força interior, mostra-se também na forma como aparecia e como abordava as pessoas, como aconteceu com o Carnaval, fazendo lembrar que era uma festa de Bairros, de alegrias demarcando-se das festas portuguesas.

O Dr. Agostinho Neto, organizou um Movimento que no início detinha uma importância política e intelectual ousada, pois em 1965, o MPLA organizou um instrumento para formar as consciências sobre a identidade Angolana, um livro sobre a História de Angola⁷, servindo ainda hoje de instrumento estruturado por intelectuais que procuravam dar uma memória de angolanidade. Tudo visto e exposto, mostra a dimensão estética, política e humanista de Neto. Reconhecida também por Mourão (1989: 317). Mas também era obstinado em repor a disciplina e ordem num Movimento que lutava para a Independência de um Povo expoliado, combateu o tribalismo, elitismo e regionalismo negativo no seio do MPLA; é exemplo disto a coragem que teve e manteve numa altura de decisão interna, no trágico ano de 1977, com os fraccionistas, levados por tendências mais ortodoxas e um tanto quanto "radicais", surgiram descontentamentos no seio de altos dirigentes do MPLA, criando ou fomentando actos que fragilizavam a recém Independência de Angola, segundo Birmingham (2003:183), o Líder, não hesitou, usou da força para sancionar a rebelião; pareceu "excessivo", mas era uma questão de Estado; ou triunfavam os revoltos e consequentemente a imprevisibilidade dos golpes! Com as suas razões e argumentos ou soçobrava a frágil Independência ou Revolução de Angola.

Estamos perante uma personalidade ímpar. Isto não implica aceitar ou julgar o que aconteceu com o olhar de hoje, é compreender o passado sem ressentimentos, pois, os homens devem ser olhados no seu tempo, o justo e o injusto varia de sociedade em sociedade e de tempo em tempo. Cabe, sim relatar o sucedido sem juízos de valor. As revoluções podem sempre ser imprevisíveis e até "devora" seus filhos; o poder conquista-se ou mantém-se!..

Estadista e o Poder

Neto, foi "traído" pelo poder e as suas alianças próprias da política do poder, e não do conhecimento; na política do poder contam sim, as estratégias, alianças e forças de manutenção do poder ou de conquista. Nesta luta entre o poder ou conquista só são heróis os "vencedores ou conquistadores", exigindo-se deste modo a frieza, astúcia e prudência; eis a razão do poder ofuscar os humanistas e não o conhecimento, pois, é exuberante na manifestação, e generoso na difusão da sensibilidade. Os sábios ultrapassam o tempo, mas o poder termina com o fim do poder.

Neto, faleceu em Moscovo no dia 10 de Setembro de 1979, morreu o governante, político, estadista. Hoje falamos do Sábio Poeta, que ultrapassou, os quase quatro anos como Presidente da República Popular de Angola. Tudo que fez, fé-lo na fé de que era o melhor para os Angolanos, para o bem comum; como dizia ; só o conjunto do Povo organizado e unido pode enfrentar qualquer adversário.

Povo organizado e unido pode enfrentar qualquer adversário. Era um idealista, mas realista, era um misto de Moisés e josé¹, que educado como futuro Faraó, optou por libertar o seu Povo, partindo para a terra prometida. Neto, é um nacionalista que procurou tomar a utopia real, conseguiu; coisa rara, entre o sonho "fantasia" e realidade, sonhou com a Independência, concretizou; sonhou com a libertação do Continente Negro e suas gentes conseguiu, continuou a sua luta na África do Sul e na Namíbia, conseguiu. Neto, é equiparado com Luter King, Nkrumah, Senghor¹¹, Cabral a diferença entre todos eles, é a sua luta constante para não se refugiar numa etnia ou raça em detrimento doutra¹².

Era um humanista, era um Kilamba, isto é, represente, intérprete das divindades aquáticas, era um líder espiritual que lutava com as forças para manter a paz, é isto que um kikata, kikuata faz com o Kilamba¹³, ele representa bem o imaginário da identidade Angolana, da cosgomonia Angolana (Tumundongo ou Kimbundu), da região onde nasceu, sem nunca substimar todo resto, é o homem local que se torna global como manifesta no poema "Antigamente Era" escrito em 1951¹⁴:

«Antigamente era o eu-proscrito

Antigamente era a pele escura-noite do mundo

Antigamente era o canto rindo lamentos

Antigamente era espírito simples e bom

Outrora tudo era tristeza

Antigamente era tudo sonho de criança.

A pele o espírito o canto o choro


Eram como a papaia refrescante

Para aquele viajante

Cujo nome vem nos livros para meninos

Mas dei um passo

Ergui os olhos e soltei um grito

Que foi ecoar nas mais distantes terras do mundo

Harlem

     Pekim

         Barcelona

                   Paris

Nas florestas escondidas do Novo Mundo

E a pele

   O espírito

         O canto

              O choro

Brilham como gumes prateados crecem.

Belos e irresistíveis

Como o mais belo sol do mais belo dia da vida.»

O legado de Neto, transvaza Angola, mesmo escrevendo

Pensando no seu Povo, escreveu para a humanidade, pois se não

Vejamos:

1. Escreveu grande parte dos seus Poemas antes da Independência de Angola, isto significa dizer que no exterior;

2. Escreveu para a promoção da igualdade e dignidades do homem negro africano isto aconteceu.

VI- Conclusão

A obra de Neto, intelectual é um vaticínio sobre o homem Angolano em particular, sendo por isso africano_ razão constantes referência sobre o Continente Negro, mas do Universo, global. Neto, como Poeta, ultrapassou o espaço geográfico onde nasceu, mas não se alienou, viveu nas matas e na diáspora, combateu o colonialismo arriscando a sua vida, aliou-se aos valores progressistas como resultado das alianças estratégicas do tempo da Guerra Fria/ Ocidente Oriente; quando teve sua formação num país Ocidental e conservador (Portugal);

Parecendo-me um pragmático, próprio de quem sai da teoria à prática de poeta à líder revolucionário. O Neto Poeta pode não coincidir com o Neto Estadista ou governante. Pois, constata-se que:

*
O Líder Político tinha de ser pragmático, impondo disciplina à juventude e educação, ou seja, identidade e autoridade

*
Promover a unidade Nacional e disciplinar o MPLA-Partido Estado de então


*
Criar quadros capazes de continuar o projecto de Independência nacional

*
Concretizou o sonho da «Sagrada Esperança» proclamando a Independência Nacional no dia 11 de Novembro de 1975

*
Defendeu a continuidade da Luta na África do Sul e na Namíbia, concretizado posteriormente em 1990, com o fim do Apartheid, projecto concretizado pelo seu sucessor e Quadro da Primeira geração formado na URSS o actual Presidente da República de Angola Engº José Eduardo dos Santos com o presente texto procuramos realçar o pensamento estético de Neto e o seu discurso político, mostrando o que há de "coerente ou incoerente"; numa análise teóretica sem prejuízo de outros olhares. O que aqui descrevemos é a nossa constatação; não é uma verdade acabada ou perfeita, existirão outros olhares mais cuidadosos.

Devendo por isso, promover–se a difusão da sua Obra«Sagrada Esperança e Renúncia Impossível», como dever do Estado. Proponho mesmo que em todas representações diplomáticas existam exemplares para oferecer aos estadistas no Acto de envio de apresentação das Credenciais ou Agremant. Sem prejuizo de envio para as Bibliotecas mais importantes como oferta do Estado Angolano que os Conselheiros Culturais deviam divulgar. Espero que o ensino da Literatura Angolana deve ter como cânone a difusão de Neto, sem prejuizo de outros autores, por razões de consolidação da Angolanidade.

Não como "endeusamento", mas por ser o poeta que interpretou o sonho da Liberdade e Dignidade do Homem negro, africano, angolano e todos seres que primam pela dignidade. É um Poéta da Angolanidade, Africanidade ou Negritude de roptura, onde a arma de combate não se limitou no discurso, mas conciliando entre o discurso e a prática combater para o alcanse da dignidade sem subjugações, bajulações ou submissão do homem Angolano ou Africano.

Felicito a iniciativa dos organizadores, sobre a Figura de Neto, reitero o agradecimento ao Embaixador Manuel Bravo, pelo convite. Bem haja, pela iniciativa de lembramos os nossos Hérois; é lembrarmos a nossa memória colectiva.

Eis, a nossa humilde contribuição sobre a figura do Dr. António Agostinho Neto, Fundador da Pátria Angolana. Honra, dignidade e memória perene ao Kilamba.

BIBLIOGRAFIA

Andrade, Mário Pinto, Origens do Nacionalismo Africano,

Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1997.

Angolê, Artes e Letras, A voz Igual, Porto 1989.

Birmingham, David, Portugal e Africa, Documenta Histórica, Lisboa 2003.

Caetano, Marcello, Depoimentos, Record, Rio de Janeiro, 1974.

Lavroff, Dmitri, Os Partidos Políticos da África Negra, Livraria Bertrand, Lisboa 1975.

Pereira, Aristides, O Meu Testemunho, Editorial Notícias, Lisboa, 2003.

Mateus, Dalila Cabrita, Memórias do Colonialismo e da Guerra, Edições Asa, Lisboa, 2006

Mateus, Dalila Cabrita, A Luta pela Independência, Inquérito,

1999.

António Agostinho Neto
, Sagrada Esperança, 10 edição, União dos Escritores Angolanos.

João Pinto
, Literatura Identidade e Política, Jornal de Angola suplemento Vida e Cultura de 6 de Abril de 2008, pag 29.

João Pinto, comparar Neto com Senghor é " perfeita ignorância", Novo Jornal, de 2 de Maio de 2008, Pag. Pag. 17, Luanda.
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